E caiu nas trevas com um ardor que se lançava urgente e atormentado. Já não lhe cabia conceber idéia alguma que não fosse construída com escuridão e torpor. Se estático, era por não poder agir de maneira a refrear-se ou livrar-se do incômodo. Quisera escrever, contudo não havia meio de ordenar as palavras para que fossem compreensíveis. Ainda parado – ficaria assim por mais duas horas -, planejou um grande gesto que fosse capaz de redimi-lo derradeiramente, perante o mundo e para si mesmo. Por duas horas calculou todos os pormenores da ação, que envolveria uma criança, uma mulher desafortunada e uma soma considerável de dinheiro. Haveria de provar a todos a bondade da qual era capaz e como seu coração se compadecia, tratando por tornar inquestionável a piedade de seu caráter. Se fosse preciso, chegaria a se humilhar para provar suas intenções, desde que fosse perfeitamente remediável. Quando deu o plano por encerrado, se deixou descansar por um minuto, procurando deixar a mente livre, sem pensar em nada. Nessa ausência de pensamento, refreando a velocidade atordoante do cérebro, realizou que toda a sua negridão era sua somente, que a ninguém havia participado. Sendo assim, não haveria meios de se expiar em ato público, já que o público desconhecia sua vilania. Mais uma vez seu pensamento aquietou-se e uma sensação incontrolável de impotência o dominou. Sentou-se e ficou a olhar as próprias mãos, que seriam obrigadas a carregar o peso e a sujeira de suas memórias.
domingo, 6 de janeiro de 2008
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