Sístole. Diástole. Hemodiálise. Meu Deus, estou morrendo. Todos não morrem? Por que eu? Quantos meses? Dias, eu não sei. Vida que se extingue e eu que me paro e não sei se caminho ou se desisto. Se for em frente, o que há que se possa fazer? Tantos já pensaram nisso, tantos já pensaram na vida. Não há nada novo. Isso só faz de mim mais um, mais um que morre, apodrece, vai pro céu ou nada. Nada, isso bem que sintetiza minha passagem tão efêmera quanto a de todos os outros que passaram antes de mim. Aconteceu algo com eles, eu sei que aconteceu, só não sei o que seriam. Amaram, na certa também odiaram. E daí? Nada, absolutamente nada. O que faz essa caminhada interessante é a paisagem. Era, quer dizer. Está todo mundo tão igual. Tão igual, tão igual, e eu sou mais um. Um de quantos? Um dos quais? Que quais? Ai, meu Deus, eu sou fraco. Nem meu sangue serve. E o que há? Eu não sei, não sei.
Sístole. Diástole. É isso. Não há nada mais. Pois se não há, o que há para ser feito é inútil. Poderia, então, parar por aqui e não fazer o que se espera. É uma solução provável, por mais decepcionante que seja. Não desistir jamais, sequer desistir do abandono. É preciso agarrar com força. Será? Se é tudo inútil, qual a utilidade de fazer o que, de tão efêmero que é, torna-se cansativo. Algo de válido deve ser feito, ainda que o tempo invalidade todas as ações feitas e as pensadas. Render-se, enfim e abandonar tudo. Não, não é assim que deve ser, mas nada é como deveria.
Vou levar meu ganso embora. Resolução de fim de namoro. Ganso, que animal estúpido. O dia todo a ciscar, nada, perseguir transeuntes e sonhar em ter a elegância de um cisne. Tudo é útil, disseram um dia em algum lugar. Se for assim, até mesmo aquele ganso poderia servir pra algo. Por que não? Bastaria pegar uma receita, fazer um jantar maravilhoso e chamar a fulana do 3º andar. É, até o ganso, quem diria.
Cortou a ponta do dedo com a faca enquanto desossava o frango. O frango, morto, estaria olhando naquele momento para ela com o típico olhar patético de um frango. Mas o que se esperar de um frango que nem sangue tinha? Em compensação, o dedo dela teimava em mostrar-lhe todo o sangue que tinha. Foi até o quarto e fez um curativo. Cinco minutos depois, pode reparar na mancha de sangue que o algodão não havia estancado. Sangue, pela cozinha e umas gotas no chão da copa. E o pobre do frango sem nenhum. Voltou ao aviário e pediu o sangue do frango morto. O sangue fica no frigorífico, disseram. Por pouco, ela não devolveu a vida ao frango.
De novo, objetos voadores haviam sujado seu carro. Eram mesmo uns bichos desgraçados esses pombos. Afinal, qual era a utilidade deles no mundo? Pode ser que há anos serviam de correio, mas, agora, com telefone e e-mail, por que pombos? Passou na lanchonete e pediu um hambúrguer de frango. E se o frango evolui do pombo? Maldito Darwin.
É preciso que as palavras não me fujam agora senão serei obrigado a retirar-me como o pobre soldado que perdeu a guerra. Lutemos, pois. Sejamos simples e tenazes. Uma agulha penetra lentamente a parte interna da coxa de uma moça nua sentada em um sofá vermelho de veludo.
Um hospital qualquer. Um médico, no decorrer de uma operação, corta uma artéria. Ela não pára de espirrar sangue. Gaze, enfermeira, jaleco. De forma maniqueísta, quem é o vilão: o médico que corta a artéria na tentativa de salvar o paciente ou a artéria que jorra sangue gritando que está viva?
Então o pato, com suas patas desengonçadas, atravessa a rua. O que será que ele foi fazer? Alguns diriam: nada, afinal, o pato mora deste lado da rua. Que seja. Coloquemos que seja essa a razão. Ora, se o pato mora deste lado, o que haveria ele de fazer daquele lado? Não nos concentremos na filosofia, sejamos práticos. Terá o pato nascido deste lado da rua? E, se não, o que terá ele deixado do outro lado? O homem chega a momentos em que volta para lugares que não sabe à procura de algo que não se lembra.
