domingo, 16 de setembro de 2007

Odara

A casa vazia e a porta fechada. Noite, e o vento sussurra enquanto caminha: sobe escada e perpassa as frestas. Os móveis cederam lugar ao inóspito espaço branco a se derramar das paredes ao chão. Tudo se cala num pavor consentido. Se há o que fazer, houve, e o tempo que passa é passado.

Se era pra ser, o que foi? Nada palpável a não ser o que guardamos na memória, que o que é de verdade se esvai com uma sutileza e ficamos, com essa cara de bobo, olhando o infinito e pensando no quão bonitos fomos. Ora, que patéticos somos. Que patéticos seremos quando pensarmos em quão patéticos fomos. E assim será, numa volta-e-meia de sempre e a nós a nos perguntarmos: afinal, do que tínhamos medo?

Eu era um menino. Pequeno, singelo e carregava nos olhos essa dor de se perceber grande antes do tempo. Via que era pesado não ser como os outros que de terra eram felizes. Meus pais brigavam e eu simplesmente ia à padaria, desenhando situações que eu chegava, dizia algo impossível e eles paravam de brigar. Salvava o mundo. E quem me salvava?

Mariana, pudica e febril, abriu o roupão num gesto milimetrado pelos olhos de Gustavo. Escorreu pelo corpo dela procurando aquele sinal que imaginara. Lá estava a cicatriz, acima da perna esquerda, a denunciar o acidente. Naquele momento, ambos morreram.