domingo, 12 de agosto de 2007

Mundano

Quanto vale um conto antigo ainda que não real?


O Cigarro

Depois ele acendeu o cigarro.

- Eu odeio que você fume. Enche a casa desse cheiro maldito.

- Me deixa.

Ela foi andando até a cozinha, nua, procurar algo pra comer.

- Você não vai tomar um banho? Você sempre toma banho.

- Se você parasse de fumar e me fizesse companhia eu até tomaria.

- Só vou fumar esse.

- Por que você tem sempre que fumar?

- Por que eu sempre tenho que te chupar antes?

- Não sei. Por que você me ama?

Silêncio.

- Como você não é romântico!

- Deveria ser?

- Claro. Toda mulher gosta disso.

- Até você?

- O que quer dizer?

- Eu? Nada.

- Não, agora eu quero saber. Você acha que eu não sou como toda mulher.

- Exatamente o contrário: você é como toda mulher.

Ela já estava encostada na porta do quarto e o olhava, nu, na cama, com o cigarro entre os dedos da mão direita. Era um corpo como todos os outros, só que tinha mais pêlos que os anteriores.

- Você quer dizer que eu sou barata?

- Eu nunca diria isso.

- Mas insinuaria.

- Você me viu insinuar algo?

- Não se faça de bobo.

- Então terei que fingir ser outra pessoa.

Mostrou os dentes já um pouco amarelados e olhou para o lado.

- Seria bom. Talvez assim você fosse uma pessoa melhor.

- Eu já me acho bom o suficiente. O seu corpo também acha.

- Nunca mais fale de mim assim!

- Por que? O que você vai fazer?

- Não fale de mim assim nunca mais.

- Tá bom.

- Conversa comigo direito!

- Desde quando conversamos?

O olhar repreensivo dela apagou o cigarro dele. Fez-se um silêncio incômodo.

- E quanto ao banho? Já terminei meu cigarro.

- Nem tudo é no seu tempo.

- Não?

Ele se levantou e foi em direção a ela. Ela esquivou-se, saiu andando pela casa e ele atrás dela. Ela dizia pára, pára, e ele continuava. Conseguiu cercá-la na cozinha. A apertou, ela virou o rosto. Com uma mão, ele segurou o rosto dela e a beijou. Ela resistiu por mais um minuto. Meia hora depois ele fumava de toalha.

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