sábado, 15 de dezembro de 2007

Cadarço

Só eu sei dessas noites longas que passo, eu e meu cadarço, a desembaraçar os nossos próprios nós. E é assim: a gente calado, sentado, de pernas cruzadas, tentando compreender o porque de tantas voltas. Dou um passo, ele me prende. Eu o pego, ele se solta. De repente, percebemos que estamos combinados e que somos o pé do outro. No fim, levanto, refaço o laço e ele me aperta o caminhar. Sempre no mesmo passo.

sábado, 3 de novembro de 2007

A felicidade, desesperadamente

Perdemos. O caminho é perda. É um abrir mão de qualquer coisa que adquirimos pela estrada. Aqui sobe, ali desce, e vivemos nas escolhas do que é possível carregar. Sempre o peso. E ainda me peço ser leve. Seria largar tudo e se elevar, mas então não teríamos para onde ir, se vamos para levar o que nos propomos a carregar. Eclesiastes: tudo é vaidade.

sábado, 13 de outubro de 2007

domingo, 7 de outubro de 2007

Invisível

Meu mundo me pertence como eu pertenço a ele

Abandoná-lo seria uma fuga

E não sei se estou disposto a ser estrangeiro em todo chão

(E já não o sou?)

O Mundo é tão tentador

Imagina, enfim ser como todos

Fazer o que todos fazem

Todas as estripulias e mágicas

Mas não sei.

Puro? Sim. Mas não faça piada

Eu nasci neste mundo

Pequeno. Pequeno que só cabe eu

Os vulcões e a rosa

Mas os vulcões morreram e a rosa

A rosa?

É só arrancar e levar.

Mas não.

domingo, 16 de setembro de 2007

Odara

A casa vazia e a porta fechada. Noite, e o vento sussurra enquanto caminha: sobe escada e perpassa as frestas. Os móveis cederam lugar ao inóspito espaço branco a se derramar das paredes ao chão. Tudo se cala num pavor consentido. Se há o que fazer, houve, e o tempo que passa é passado.

Se era pra ser, o que foi? Nada palpável a não ser o que guardamos na memória, que o que é de verdade se esvai com uma sutileza e ficamos, com essa cara de bobo, olhando o infinito e pensando no quão bonitos fomos. Ora, que patéticos somos. Que patéticos seremos quando pensarmos em quão patéticos fomos. E assim será, numa volta-e-meia de sempre e a nós a nos perguntarmos: afinal, do que tínhamos medo?

Eu era um menino. Pequeno, singelo e carregava nos olhos essa dor de se perceber grande antes do tempo. Via que era pesado não ser como os outros que de terra eram felizes. Meus pais brigavam e eu simplesmente ia à padaria, desenhando situações que eu chegava, dizia algo impossível e eles paravam de brigar. Salvava o mundo. E quem me salvava?

Mariana, pudica e febril, abriu o roupão num gesto milimetrado pelos olhos de Gustavo. Escorreu pelo corpo dela procurando aquele sinal que imaginara. Lá estava a cicatriz, acima da perna esquerda, a denunciar o acidente. Naquele momento, ambos morreram.

domingo, 12 de agosto de 2007

Sístole, diástole

Sístole. Diástole. Hemodiálise. Meu Deus, estou morrendo. Todos não morrem? Por que eu? Quantos meses? Dias, eu não sei. Vida que se extingue e eu que me paro e não sei se caminho ou se desisto. Se for em frente, o que há que se possa fazer? Tantos já pensaram nisso, tantos já pensaram na vida. Não há nada novo. Isso só faz de mim mais um, mais um que morre, apodrece, vai pro céu ou nada. Nada, isso bem que sintetiza minha passagem tão efêmera quanto a de todos os outros que passaram antes de mim. Aconteceu algo com eles, eu sei que aconteceu, só não sei o que seriam. Amaram, na certa também odiaram. E daí? Nada, absolutamente nada. O que faz essa caminhada interessante é a paisagem. Era, quer dizer. Está todo mundo tão igual. Tão igual, tão igual, e eu sou mais um. Um de quantos? Um dos quais? Que quais? Ai, meu Deus, eu sou fraco. Nem meu sangue serve. E o que há? Eu não sei, não sei.



Sístole. Diástole. É isso. Não há nada mais. Pois se não há, o que há para ser feito é inútil. Poderia, então, parar por aqui e não fazer o que se espera. É uma solução provável, por mais decepcionante que seja. Não desistir jamais, sequer desistir do abandono. É preciso agarrar com força. Será? Se é tudo inútil, qual a utilidade de fazer o que, de tão efêmero que é, torna-se cansativo. Algo de válido deve ser feito, ainda que o tempo invalidade todas as ações feitas e as pensadas. Render-se, enfim e abandonar tudo. Não, não é assim que deve ser, mas nada é como deveria.



Vou levar meu ganso embora. Resolução de fim de namoro. Ganso, que animal estúpido. O dia todo a ciscar, nada, perseguir transeuntes e sonhar em ter a elegância de um cisne. Tudo é útil, disseram um dia em algum lugar. Se for assim, até mesmo aquele ganso poderia servir pra algo. Por que não? Bastaria pegar uma receita, fazer um jantar maravilhoso e chamar a fulana do 3º andar. É, até o ganso, quem diria.



Cortou a ponta do dedo com a faca enquanto desossava o frango. O frango, morto, estaria olhando naquele momento para ela com o típico olhar patético de um frango. Mas o que se esperar de um frango que nem sangue tinha? Em compensação, o dedo dela teimava em mostrar-lhe todo o sangue que tinha. Foi até o quarto e fez um curativo. Cinco minutos depois, pode reparar na mancha de sangue que o algodão não havia estancado. Sangue, pela cozinha e umas gotas no chão da copa. E o pobre do frango sem nenhum. Voltou ao aviário e pediu o sangue do frango morto. O sangue fica no frigorífico, disseram. Por pouco, ela não devolveu a vida ao frango.



De novo, objetos voadores haviam sujado seu carro. Eram mesmo uns bichos desgraçados esses pombos. Afinal, qual era a utilidade deles no mundo? Pode ser que há anos serviam de correio, mas, agora, com telefone e e-mail, por que pombos? Passou na lanchonete e pediu um hambúrguer de frango. E se o frango evolui do pombo? Maldito Darwin.



É preciso que as palavras não me fujam agora senão serei obrigado a retirar-me como o pobre soldado que perdeu a guerra. Lutemos, pois. Sejamos simples e tenazes. Uma agulha penetra lentamente a parte interna da coxa de uma moça nua sentada em um sofá vermelho de veludo.



Um hospital qualquer. Um médico, no decorrer de uma operação, corta uma artéria. Ela não pára de espirrar sangue. Gaze, enfermeira, jaleco. De forma maniqueísta, quem é o vilão: o médico que corta a artéria na tentativa de salvar o paciente ou a artéria que jorra sangue gritando que está viva?



Então o pato, com suas patas desengonçadas, atravessa a rua. O que será que ele foi fazer? Alguns diriam: nada, afinal, o pato mora deste lado da rua. Que seja. Coloquemos que seja essa a razão. Ora, se o pato mora deste lado, o que haveria ele de fazer daquele lado? Não nos concentremos na filosofia, sejamos práticos. Terá o pato nascido deste lado da rua? E, se não, o que terá ele deixado do outro lado? O homem chega a momentos em que volta para lugares que não sabe à procura de algo que não se lembra.

Mini-Conto

Um dia, encontraram um esqueleto na praça da cidade. A população toda se reuniu ao redor daquela figura pálida. “Você o conhece?”. Ninguém o conhecia. Chamaram o delegado. Não havia crime algum há dois meses. No necrotério, não havia sumido ninguém, nem no cemitério. Quem teria morrido? Resolveram fazer um censo na cidade pra descobrir quem havia sumido. Não encontraram um homem e um cachorro, que nunca eram vistos no mesmo lugar.

Mundano

Quanto vale um conto antigo ainda que não real?


O Cigarro

Depois ele acendeu o cigarro.

- Eu odeio que você fume. Enche a casa desse cheiro maldito.

- Me deixa.

Ela foi andando até a cozinha, nua, procurar algo pra comer.

- Você não vai tomar um banho? Você sempre toma banho.

- Se você parasse de fumar e me fizesse companhia eu até tomaria.

- Só vou fumar esse.

- Por que você tem sempre que fumar?

- Por que eu sempre tenho que te chupar antes?

- Não sei. Por que você me ama?

Silêncio.

- Como você não é romântico!

- Deveria ser?

- Claro. Toda mulher gosta disso.

- Até você?

- O que quer dizer?

- Eu? Nada.

- Não, agora eu quero saber. Você acha que eu não sou como toda mulher.

- Exatamente o contrário: você é como toda mulher.

Ela já estava encostada na porta do quarto e o olhava, nu, na cama, com o cigarro entre os dedos da mão direita. Era um corpo como todos os outros, só que tinha mais pêlos que os anteriores.

- Você quer dizer que eu sou barata?

- Eu nunca diria isso.

- Mas insinuaria.

- Você me viu insinuar algo?

- Não se faça de bobo.

- Então terei que fingir ser outra pessoa.

Mostrou os dentes já um pouco amarelados e olhou para o lado.

- Seria bom. Talvez assim você fosse uma pessoa melhor.

- Eu já me acho bom o suficiente. O seu corpo também acha.

- Nunca mais fale de mim assim!

- Por que? O que você vai fazer?

- Não fale de mim assim nunca mais.

- Tá bom.

- Conversa comigo direito!

- Desde quando conversamos?

O olhar repreensivo dela apagou o cigarro dele. Fez-se um silêncio incômodo.

- E quanto ao banho? Já terminei meu cigarro.

- Nem tudo é no seu tempo.

- Não?

Ele se levantou e foi em direção a ela. Ela esquivou-se, saiu andando pela casa e ele atrás dela. Ela dizia pára, pára, e ele continuava. Conseguiu cercá-la na cozinha. A apertou, ela virou o rosto. Com uma mão, ele segurou o rosto dela e a beijou. Ela resistiu por mais um minuto. Meia hora depois ele fumava de toalha.

sábado, 4 de agosto de 2007

Se fosse verdade, então

Minha brincadeira publicitária AQUI

domingo, 8 de julho de 2007

sábado, 30 de junho de 2007

Se retorno, sou novo. Se renovo, sou diferente, ou perene.

Sem trinco.




E agora eu sou porta.

Tudo passa por mim, a vida que adentra casa afora para alegrar a cozinha

O tumulto que da rua alarda as crianças

O som de som que envolve o ar


Passa o homem de pé atrasado que me bate e eu não me importo

Desde que saia

O menino que volta e se esconde

E eu abro e fecho até ele aparecer


O vento que brinca cocégas

Eu finjo que deixo entrar mas não

E ele suspira do lado


Ruim é sair todos

E eu esperar abrir e receber

Que receber é melhor que ver partir


Sempre voltam

É em mim que chegam

Eu abro o caminho e o abraço

E escuto, sempre escuto


Agora sou porta e o mundo passa por mim.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Azul

Ela tem uma flor no cabelo. Sei, tantas tem, não? É um motivo bobo pra se gostar de alguém. Pra verdade, tem bom motivo pra gostar? Conheço uma enfermeira, ela cuida de gente velha morrendo. Domingo, de manhã, faz caminhada na lagoa. Não mora com a mãe, mas ainda compra as mesmas margaridas toda vez que vai lá. Apaixonável, sim, linda também. No entanto, ela não tem uma flor no cabelo. Detalhe banal, meu Deus. Flor, o que tem uma flor? E tinha que ser azul. Se fosse vermelha seria mais fácil não me apaixonar. Vermelha, latina demais. É azul, tão difícil de encontrar.


É simples a flor dela, é simples ela toda. Ela fica vermelha quando penteio o cabelo dela. É bonito de ver, principalmente de manhãzinha. Ela é mais branca e fica mais vermelha, e sempre com a flor no cabelo. Ela acorda logo vai ao vaso e arranca uma. Põe no cabelo e sorri. Sorri infinito e nem parece que a flor só dura um dia.


Tentei deixar duas vezes. O problema maior é as árvores, nessa época com tantas flores. De todas as cores, mas nunca azul. Azul só ela.

Então eu volto.

Então eu volto aos meios cinernéticos. O que, afinal, isso significa? Não, não parei de viver (explicaria essa parte mas levaria um tempo). O título do blog já diz o que pretendo: ficar 5 minutos por aqui e ver, observar e sentir. O que daí se dará, veremos.