quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Sabe, Sabino?
- Um elefante – disse o garçom.
- Imagine dois.
- Hum...
- Um, não: dois!
- Eu sei: dois.
- Imagine três. Dez. Vinte.
- Vinte elefantes – sorriu o garçom.
- Agora, imagine cem, duzentos, mil.
- Mil?
- Mil. Se você é capaz. De mil, cinqüenta mil, cem mil elefantes. Você é capaz?
- ...
- Pois agora imagine um milhão. Um milhão de elefantes galopando, um milhão! Já imaginou?
- Poeira, hein?
- Poeira, nada: elefantes! Um milhão. Um bilhão, chega?
- Um bilhão – o garçom repetiu.
- Novecentos bilhões. Novecentos e noventa e nove trilhões! de elefantes. Não posso mais. Acho que chega, você que acha?
- É muito elefante – concordou o garçom.
- É: muito. Pois agora você imagine uma pulga.
- Uma pulga – e o garçom suspirou, resignado.
- Isso: novecentos e noventa e nove trilhões de elefantes, de um lado: e uma pulga, do outro lado. – Morou?
- Não.
- É o terror – arrematou ele. – Me dá um uísque."
domingo, 6 de janeiro de 2008
soa como caos
E caiu nas trevas com um ardor que se lançava urgente e atormentado. Já não lhe cabia conceber idéia alguma que não fosse construída com escuridão e torpor. Se estático, era por não poder agir de maneira a refrear-se ou livrar-se do incômodo. Quisera escrever, contudo não havia meio de ordenar as palavras para que fossem compreensíveis. Ainda parado – ficaria assim por mais duas horas -, planejou um grande gesto que fosse capaz de redimi-lo derradeiramente, perante o mundo e para si mesmo. Por duas horas calculou todos os pormenores da ação, que envolveria uma criança, uma mulher desafortunada e uma soma considerável de dinheiro. Haveria de provar a todos a bondade da qual era capaz e como seu coração se compadecia, tratando por tornar inquestionável a piedade de seu caráter. Se fosse preciso, chegaria a se humilhar para provar suas intenções, desde que fosse perfeitamente remediável. Quando deu o plano por encerrado, se deixou descansar por um minuto, procurando deixar a mente livre, sem pensar em nada. Nessa ausência de pensamento, refreando a velocidade atordoante do cérebro, realizou que toda a sua negridão era sua somente, que a ninguém havia participado. Sendo assim, não haveria meios de se expiar em ato público, já que o público desconhecia sua vilania. Mais uma vez seu pensamento aquietou-se e uma sensação incontrolável de impotência o dominou. Sentou-se e ficou a olhar as próprias mãos, que seriam obrigadas a carregar o peso e a sujeira de suas memórias.
sábado, 15 de dezembro de 2007
Cadarço
sábado, 3 de novembro de 2007
A felicidade, desesperadamente
Perdemos. O caminho é perda. É um abrir mão de qualquer coisa que adquirimos pela estrada. Aqui sobe, ali desce, e vivemos nas escolhas do que é possível carregar. Sempre o peso. E ainda me peço ser leve. Seria largar tudo e se elevar, mas então não teríamos para onde ir, se vamos para levar o que nos propomos a carregar. Eclesiastes: tudo é vaidade.
sábado, 13 de outubro de 2007
domingo, 7 de outubro de 2007
Invisível
Meu mundo me pertence como eu pertenço a ele
Abandoná-lo seria uma fuga
E não sei se estou disposto a ser estrangeiro em todo chão
(E já não o sou?)
O Mundo é tão tentador
Imagina, enfim ser como todos
Fazer o que todos fazem
Todas as estripulias e mágicas
Mas não sei.
Puro? Sim. Mas não faça piada
Eu nasci neste mundo
Pequeno. Pequeno que só cabe eu
Os vulcões e a rosa
Mas os vulcões morreram e a rosa
A rosa?
É só arrancar e levar.
Mas não.
domingo, 16 de setembro de 2007
Odara
A casa vazia e a porta fechada. Noite, e o vento sussurra enquanto caminha: sobe escada e perpassa as frestas. Os móveis cederam lugar ao inóspito espaço branco a se derramar das paredes ao chão. Tudo se cala num pavor consentido. Se há o que fazer, houve, e o tempo que passa é passado.
Se era pra ser, o que foi? Nada palpável a não ser o que guardamos na memória, que o que é de verdade se esvai com uma sutileza e ficamos, com essa cara de bobo, olhando o infinito e pensando no quão bonitos fomos. Ora, que patéticos somos. Que patéticos seremos quando pensarmos em quão patéticos fomos. E assim será, numa volta-e-meia de sempre e a nós a nos perguntarmos: afinal, do que tínhamos medo?
Eu era um menino. Pequeno, singelo e carregava nos olhos essa dor de se perceber grande antes do tempo. Via que era pesado não ser como os outros que de terra eram felizes. Meus pais brigavam e eu simplesmente ia à padaria, desenhando situações que eu chegava, dizia algo impossível e eles paravam de brigar. Salvava o mundo. E quem me salvava?
Mariana, pudica e febril, abriu o roupão num gesto milimetrado pelos olhos de Gustavo. Escorreu pelo corpo dela procurando aquele sinal que imaginara. Lá estava a cicatriz, acima da perna esquerda, a denunciar o acidente. Naquele momento, ambos morreram.

